Ativista e artista

Não se separam o ativista, o artista e o intelectual em Abdias. No seu trabalho, as reflexões teóricas se baseiam nas lutas sociais e na construção de identidade; a política se sustenta na memória e na cultura; a arte expressa reivindicações.

Assim, interesses centrais transparecem na sua poesia, na sua pintura, nos seus projetos de lei, nas publicações que editou: história da África, religiosidade banta-iorubá, marcos culturais e revolucionários dos povos negros diaspóricos.

foto: Ron Wofford/Acervo Ipeafro

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Frente Negra Brasileira (FNB), São Paulo, 1935. Movimento negro fundado em outubro de 1931, a FNB lutava contra o racismo e foi reconhecida como partido político em 1936, tendo permanecido como tal somente até 1937, até a instauração do Estado Novo | Acervo Ipeafro

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Cronologia - Frente Negra Brasileira

1931 – No Batalhão de Quitaúna, Abdias conhece o comandante Manoel Rabelo, membro do Tribunal de Justiça Militar que, ao final desse mesmo ano, seria nomeado interventor no estado de São Paulo. É fundada a Frente Negra Brasileira (FNB), que reunia aproximadamente 6 mil representantes em São Paulo, além de núcleos em Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Maranhão. Diante do conflito entre os constitucionalistas paulistas e as tropas federalistas, a FNB procurou se manter neutra. Uma dissidência da agremiação, no entanto, decidiu se articular formando a Legião Negra (LN), que levou cerca de 2 mil homens a combaterem ao lado dos paulistas.

1932 – Atuando como militar na Revolução Constitucionalista de 1932, Abdias permanece nas forças armadas até 1936. Paralelamente, estudou na Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado em São Paulo e participou de atividades públicas organizadas pela FNB. Trabalhando na sede do Comando da Região Militar, conheceu Sebastião Rodrigues Alves, com quem passou a dividir um quarto de pensão juntamente com Sebastião Prata (Grande Otelo).

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Militância e política

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Exemplar do periódico O Clarim d’Alvorada. Ano III, São Paulo 13 de maio de 1926, nº 21

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“(...) a falsificação da História do Brasil fazia parte, como continua fazendo, de um processo mais amplo de perversão intelectual, iniciado em fins do século 18, com o propósito de justificar a escravização de africanos e a transformação de seu continente numa colcha de retalhos a ser pilhada e saqueada pelos cúpidos interesses europeus.”

pronunciamento de Abdias Nascimento no Senado Federal, dia 18 de novembro de 1998

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“A tentativa de vender a abolição como produto da benevolência de uma princesa branca é parte de um quadro maior, que inclui outras fantasias, como a ´colonização doce´ - suave apelido do massacre perpetrado pelos portugueses na África e nas Américas - e o ´lusotropicalismo´, expressão que encerra a contribuição lusitana à construção de uma ´civilização´ tropical supostamente aberta e tolerante. Talvez do tipo daquela por eles edificada em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau, quando a humilhação e a tortura foram amplamente usadas como formas de manter a dominação física e psicológica de europeus sobre africanos.”

pronunciamento de Abdias Nascimento no Senado Federal, dia 13 de maio de 1998

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Cronologia - Ação Integralista Brasileira

1936 – Ao serem barrados de uma boate, Abdias e Rodrigues Alves reagem contra exclusão. Na briga com o porteiro, intervém o doutor Egas Botelho, chefe do DOPS. Em vez de defender o direito constitucional dos jovens negros, ele reforça e legitima a atitude discriminatória. Por resistirem contra essa agressão, Abdias e Rodrigues Alves são presos e levados ao nefasto Gabinete de Investigações, onde são brutalmente torturados. Afastado do Exército, Abdias se muda para o Rio de Janeiro, indo morar no Morro da Mangueira.

1937 – Abandona a AIB e se posiciona contrariamente ao Estado Novo. Instalando-se em Duque de Caxias, aproxima-se das religiões de matriz africana, frequentando o terreiro de Joãozinho da Gomeia. No mesmo ano, conhece o poeta Solano Trindade e o maestro Abigail Moura, então diretor da Orquestra Afro-Brasileira. Transfere a sua matrícula da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado para a Universidade do Rio de Janeiro (atual Uerj) e passa a frequentar lá o bacharelado em ciências econômicas. Como repórter do jornal O Povo, responsabiliza-se pela cobertura do julgamento de Luís Carlos Prestes. É preso com um grupo de estudantes ex-integralistas que distribuíam panfletos contra a permanência de navios norte-americanos na Baía de Guanabara.

1938 – Libertado em abril, Abdias conclui o curso de ciências econômicas na Uerj depois de ter sido novamente expulso dos quadros do Exército. Passa a viver em Campinas (SP), ainda que por pouco tempo.

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Jornal Alvorada, editado em São Paulo, edição comemorativa do dia 28 de setembro de 1945 em homenagem ao Dia da Mãe Negra | Acervo Ipeafro

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Abdias Nascimento com Francisco Pabón, professor e fundador do Centro de Estudos Portorriquenhos na Universidade do Estado de Nova York, em evento do Centro Cultural Afro-Americano de Búfalo, na cidade de Nova York, em 1978 |Ron Wofford/Acervo Ipeafro

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“(...) o problema racial brasileiro começa a ser identificado e denunciado no plano internacional, principalmente por obra das organizações negras, cada vez mais alertas e atuantes, revelando ao mundo a verdadeira face de um país erigido sob um modelo extraordinariamente eficaz de supremacia branca.”

pronunciamento de Abdias Nascimento no Senado Federal, dia 28 de maio de 1998

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Rio de Janeiro (RJ), 1983: Abdias Nascimento na Marcha Zumbi Vive, Rio de Janeiro, 1983 | Elisa Larkin Nascimento/Acervo Ipeafro

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Na Serra da Barriga, em Alagoas, Abdias Nascimento discursa em evento do Memorial Zumbi dos Palmares | Elisa Larkin Nascimento/Acervo Ipeafro

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Quilombismo e quilombolas: experiências históricas e culturais negras | Por Danilo Luiz Marques*

*com a colaboração de Gabriel dos Santos Rocha

 O conceito de quilombo é utilizado por Abdias Nascimento ao longo de sua militância em diferentes contextos. No final da década de 1940, indica a noção de espaço de autonomia, alteridade e autoria negra, a exemplo do jornal Quilombo: Vida, Problemas e Aspirações do Negro, dirigido por Abdias no período em que também esteve à frente do Teatro Experimental do Negro. O periódico teve seu primeiro número publicado em dezembro de 1948 e o último em junho de 1950.

Entre os anos 1960 e 1970, o termo quilombo, no discurso de Abdias, passou a designar cada vez mais veementemente as noções de resistência e revolta. No período em que atuou internacionalmente no movimento pan-africanista, Abdias cunhou o conceito de “quilombismo”, apresentando-o como uma alternativa político-social de combate ao racismo e de construção de uma nova sociedade inspirada na experiência histórica dos quilombos brasileiros e nas culturas de matrizes africanas. O quilombismo trata-se, portanto, de um projeto de emancipação social do negro, alicerçado em sua própria história e em sua própria cultura, confrontando as narrativas coloniais de negação ou redução do legado africano a mero “exotismo”.

A história e a cultura dos negros na África e durante a diáspora, emancipadas das lentes, das mentes e das penas do eurocentrismo e da normatividade branca, ou seja, vistas, pensadas, escritas e narradas pelos próprios negros, movidos pelo sentimento de libertação das amarras do racismo, inspiram o quilombismo, com o objetivo de tirar o negro da condição de coadjuvante e situá-lo como protagonista no processo histórico da humanidade.

O quilombismo, portanto, evoca Palmares, todos os quilombos do Brasil e seus equivalentes nas Américas e na África, que no passado afrontaram a ordem escravocrata; evoca luta pela emancipação política dos países africanos que historicamente foram submetidos ao colonialismo europeu; evoca os movimentos antirracismo e pela igualdade de direitos entre os diferentes grupos humanos, em todas as partes do mundo; evoca também todos os quilombos que existem e resistem nos dias de hoje.

Passado e resistência histórica

 A história da colonização da América e do Caribe está repleta de comunidades de escravizados fugitivos que lutaram contra a escravidão: na Venezuela eram os cumbes; na Colômbia, os palenques; na Antígua, na Jamaica e no sul dos Estados Unidos foram os maroons; em algumas regiões caribenhas eram os maronage; em Porto Rico e Cuba, ficaram conhecidos como cimarronaje. Aqui no Brasil, essas comunidades primeiramente foram chamadas de mocambos, posteriormente de quilombos. Em todas essas regiões, tais experiências de liberdade significaram uma afronta à instituição escravista, sendo Palmares o exemplo mais emblemático, tanto no Brasil como nas Américas e no Caribe.

 O quilombo palmarino foi uma comunidade diferente, por sua longa duração e seu grande número de habitantes, além de sua organização socioeconômica (importante para sua durabilidade). Alguns historiadores entenderam Palmares como uma federação de vários agrupamentos composta de milhares de quilombolas, tornando-se símbolo da resistência colonial contra a escravidão, algo que transporia o seu tempo de “invenção original” e sua experiência histórica vivida e processada (século XVII), passando por processos de ressignificações da memória ao longo dos séculos posteriores ao término da guerra contra as autoridades coloniais.

Depois do episódio palmarino, a população escravizada no Brasil não conseguiu reproduzir uma experiência quilombola próxima ao que foi Palmares. Apesar disso, a formação de quilombos foi uma constante até os anos em que a instituição escravista findou no Brasil. Outros quilombos que marcaram a história brasileira, sobretudo nos séculos XVIII e XIX, foram o quilombo do Quariterê, em Mato Grosso (conhecido pela liderança de Tereza de Benguela), o quilombo do Jabaquara, em São Paulo, o quilombo do Leblon, no Rio de Janeiro, e o quilombo do Malunguinho, em Pernambuco.

Nessas comunidades, foram desenvolvidas práticas político-religiosas caracteristicamente africanas, uma experiência social essencial para a conservação de elementos culturais e de identidades étnicas, territórios de preservação/recriação cultural. Por exemplo, muitos pesquisadores atribuem a Palmares o surgimento de manifestações culturais como o maracatu e o coco de roda.

Após 1888, com o término da escravidão no Brasil, muitos quilombos permaneceram nos interiores do país, dando origem às atuais comunidades de remanescentes quilombolas, formadas por descendentes de africanos escravizados e/ou livres que mantiveram tradições culturais, religiosas e de subsistência ao longo dos séculos. Preservá-las consistiu – e consiste – em um ato de resistência histórica. Segundo dados da Fundação Palmares,[1] existem hoje cerca de 2.600 comunidades certificadas, havendo a estimativa da existência de mais de 5 mil em todo país, que ainda estão sendo mapeadas.

O processo de regulamentação para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e titulação de terras quilombolas só ocorreu em 2003, com o Decreto Federal nº 4.8878, que designava como órgão competente para tal função o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Tal fato resultou de um processo histórico de lutas – ainda em curso – dos próprios quilombolas e do movimento negro pela efetivação dos direitos da população afro-brasileira.

 

Danilo Luiz Marques é graduado em história pela Universidade Federal do Alagoas (Ufal)
e mestre e doutorando em história social pela
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP).

 

Gabriel dos Santos Rocha é graduado em história e mestre em
história social pela Universidade de São Paulo (USP).

[1] A Fundação Palmares tem como uma de suas funções formalizar a existência das comunidades de remanescentes quilombolas e prestar assessorias jurídicas a elas, além de desenvolver projetos, programas e políticas públicas de acesso à cidadania.

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Abdias Nascimento discursa na Serra da Barriga, em Alagoas, no dia 20 de novembro de 1983, aniversário da morte de Zumbi dos Palmares | Acervo Ipeafro

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Dom Helder Câmara e Abdias Nascimento, em Recife, Pernambuco, no ano de 1978 | Acervo Ipeafro

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“Em São Paulo o Negro vai às Ruas Protestar: Chega de Mãe Preta”, revista Istoé, 1979 | Acervo Ipeafro

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Cronologia - Santa Hermandad de la Orquídea

1939 – De volta ao Rio de Janeiro, passa a participar do universo cultural carioca e conhece os poetas argentinos Efraín Tomás Bó, Juan Raúl Young e Godofredo Tito Iommi. Juntos, dividindo um mesmo quarto de pensão, o grupo funda a Santa Hermandad de la Orquídea.

1941/1942 – O grupo viaja a Manaus (AM) e a Belém (PA). Depois, apresentando-se como “um grupo de periodistas estrangeiros em viagem pela América Latina”, os poetas partem para Letícia (Colômbia), Iquitos (Peru), Quito (Equador) e Lima (Peru), entre outras cidades. Na capital peruana, os membros da Santa Hermandad frequentam os saraus do La Cabaña e atuam como colaboradores do jornal La Cronica, dirigido por Lauro Herrera, vice-presidente peruano. Lá também assistem à encenação da peça O Imperador Jones. Escrito em 1920 por Eugene O’Neill, o texto aborda a questão racial e tem na montagem realizada pelo grupo argentino Teatro del Pueblo um protagonista branco pintado de preto. Depois, Abdias fica cerca de um ano em Buenos Aires (Argentina), onde consegue uma bolsa de estudos na Faculdade de Economia e acompanha atentamente o trabalho desenvolvido pelo grupo Teatro La Máscara e principalmente pelo Teatro del Pueblo, dirigido por Leónidas Barletta.

1942/1943 – Retorna ao Brasil. Durante sua ausência do país, Abdias responde ao processo disciplinar instaurado pelo Exército por conta da briga com o diretor do Dops, em 1936. Condenado, cumpre pena na Casa de Detenção de São Paulo (Carandiru). Lá ele edita o Nosso Jornal e dirige o Teatro do Sentenciado, grupo teatral composto exclusivamente de detentos.

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Tabloide Lampião da Esquina, Ano 2, nº 15, de agosto de 1979. Em entrevista, Abdias Nascimento critica a Lei Afonso Arinos, o sociólogo Gilberto Freyre e o escritor Jorge Amado, além de propor a união de negros, índios, homossexuais e mulheres contra as diversas formas de repressão operadas historicamente pelo Estado brasileiro | Acervo Ipeafro

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Por Nelson Maca

“(...) A escrita de Abdias
chegou antes que o fogo do ferro forjasse os cabelos – meus
E o movimento pela união e consciência – nossa
foi o meu primeiro tempo (...)”

trecho do poema “Estrangeirismo”, de Nelson Maca, presente no livro "Gramática da Ira"

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Padê de Exu libertador

Ó Exu
ao bruxoleio das velas
vejo-te comer a própria mãe
vertendo o sangue negro
que a teu sangue branco
enegrece
ao sangue vermelho
aquece
nas veias humanas
no corrimento menstrual
à encruzilhada dos
teus três sangues
deposito este ebó
preparado para ti

 

Tu me ofereces?
não recuso provar do teu mel
cheirando meia-noite de
marafo forte
sangue branco espumante
das delgadas palmeiras
bebo em teu alguidar de prata
onde ainda frescos bóiam
o sêmen a saliva a seiva
sobre o negro sangue que circula
no âmago do ferro
e explode em ilu azul

 

Ó Exu-Yangui
príncipe do universo e
último a nascer
receba estas aves e
os bichos de patas que
trouxe para satisfazer
tua voracidade ritual
fume destes charutos
vindos da africana Bahia
esta flauta de Pixinguinha
é para que possas chorar
chorinhos aos nossos ancestrais
espero que estas oferendas
agradem teu coração e
alegrem teu paladar
um coração alegre é
um estômago satisfeito e
no contentamento de ambos
está a melhor predisposição
para o cumprimento das
leis da retribuição
asseguradoras da
harmonia cósmica

 

Invocando estas leis
imploro-te Exu
plantares na minha boca
o teu axé verbal
restituindo-me a língua
que era minha
e ma roubaram
sopre Exu teu hálito
no fundo da minha garganta
lá onde brota o
botão da voz para
que o botão desabroche
se abrindo na flor do
meu falar antigo
por tua força devolvido
monta-me no axé das palavras
prenhas do teu fundamento dinâmico
e cavalgarei o infinito
sobrenatural do orum
percorrerei as distâncias
do nosso aiyê feito de
terra incerta e perigosa

 

Fecha o meu corpo aos perigos
transporta-me nas asas da
tua mobilidade expansiva
cresça-me à tua linhagem
de ironia preventiva
à minha indomável paixão
amadureça-me à tua
desabusada linguagem
escandalizemos os puritanos
desmascaremos os hipócritas
filhos da puta
assim à catarse das
impurezas culturais
exorcizaremos a domesticação
do gesto e outras
impostas a nosso povo negro

Teu punho sou
Exu-Pelintra
quando desdenhando a polícia
defendes os indefesos
vítimas dos crimes do
esquadrão da morte
punhal traiçoeiro da
mão branca
somos assassinados
porque nos julgam órfãos
desrespeitam nossa humanidade
ignorando que somos
os homens negros
as mulheres negras
orgulhosos filhos e filhas do
Senhor do Orum
Olorum
Pai nosso e teu
Exu
de quem és o fruto alado
da comunicação e da mensagem

Ó Exu
uno e onipresente
em todos nós
na tua carne retalhada
espalhada por este mundo e o outro
faça chegar ao Pai a
notícia da nossa devoção
o retrato de nossas mãos calosas
vazias da justa retribuição
transbordantes de lágrimas
diga ao Pai que nunca
no trabalho descansamos
esse contínuo fazer
de proibido lazer
encheu o cofre dos exploradores
à mais valia do nosso suor
recebemos nossa
menos valia humana
na sociedade deles
nossos estômagos roncam de
fome e revolta nas cozinhas alheias
nas prisões
nos prostíbulos
exiba ao Pai
nossos corações
feridos de angústia
nossas costas chicoteadas
ontem
no pelourinho da escravidão
hoje
no pelourinho da discriminação

Exu
tu que és o senhor dos
caminhos da libertação do teu povo
sabes daqueles que empunharam
teus ferros em brasa
contra a injustiça e a opressão
Zumbi Luiza Mahin Luiz Gama
Cosme Isidoro João Cândido
sabes que em cada coração de negro
há um quilombo pulsando
em cada barraco
outro palmares crepita
os fogos de Xangô iluminando nossa luta
atual e passada

Ofereço-te Exu
o ebó das minhas palavras
neste padê que te consagra
não eu
porém os meus e teus
irmãos e irmãs em
Olorum
nosso Pai
que está
no Orum

Laroiê!

 

Búfalo, 2 de fevereiro de 1981

Poema publicado no livro Axés do Sangue e da Esperança (Orikis).

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Yemanjá Enluarada (1968), Rio de Janeiro - guache com veículo plástico sobre tela | RCS Arte Digital/Acervo Ipeafro

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Santa Maria Egipcíaca (1968), Rio de Janeiro - acrílico sobre tela | RCS Arte Digital/Acervo Ipeafro

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Seção de vídeo

Abdias explica a sua pintura [com Libras e audiodescrição]

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Máscara Ancestral (1988), Rio de Janeiro - acrílico sobre tela | RCS Arte Digital/Acervo Ipeafro

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Abdias diaspórico: intelectualidade permeada por cosmovisões negras | por Liliane Braga

foto: Juvenal Pereira/Acervo Ipeafro

Cosmovisões negras semeadas Ocidente afora fazem brotar frutos principalmente nas artes. As diferentes linguagens artísticas, por se ligarem à intuição, à alma de quem as realiza, são fontes de desenvolvimento emocional. É na emoção que o Brasil tem sido mais afrossemeado. Não à toa, nossas expressões de afeto são marcadas por léxicos provenientes de línguas bantu: dengo, cafuné, xodó. As artes brasileiras são, em grande parte, constituídas de negrura cultural. Mas na África, diferentemente do que propõe o Ocidente, as artes são indissociáveis da vida cotidiana, que, por sua vez, é permeada pelo sagrado. E os saberes africanos integram tudo isso.

Para além de portar pele escura e levar consigo tudo que isso acarreta, intelectuais ancestralmente negros desenvolvem a matéria (corpo) e a não matéria (espírito) de que nos constituímos simultânea e comunitariamente, sem que o cérebro (e o ego) esteja à frente.  Para tanto, é essencial que se trabalhem permanentemente os sentidos (tato, olfato, paladar, visão, audição) e a memória (que não está apenas na cabeça, mas no corpo todo): é apre(e)ndido o que é vivenciado, dramatizado, performatizado – vide o que se cunhou chamar de “manifestações culturais populares” serem grandes fontes de saberes negros transmitidos intergeracionalmente. Em cosmovisões negras, pensar e sentir são indissociáveis. “Onde a galinha tem seus ovos, tem seus olhos”, diz a sabedoria ancestral.

Mas nós, ocidentalizados, desaprendemos sobre a integração mente-corpo-alma própria da visão de mundo de povos considerados “involuídos” ou “atrasados”. Do cartesianismo iluminista do século XVIII e da proposição de um único padrão de civilização/humanidade a seguir (o euro-ocidental-cristão), sobrevalorizamos a razão. E, com ela, predomina uma forma única de pensar; predomina, por exemplo, a medicina alopática ocidental em oposição às medicinas que veem o ser humano em sua inteireza, tal como a chinesa, a indiana e a noção de saúde (mental, física, espiritual) e cura tradicionais nativas das Américas, presentes no que foi hierarquicamente chamado de saberes populares (que não obtiveram o status epistemológico de que fala Nilma Lino Gomes) e em religiões afro-indígenas-brasileiras. A colonização de nossas mentes e nossos corpos por essa forma única de pensar faz de cada um de nós reprodutores em potencial de racismos – no plural, como propõe Stuart Hall – e outros fundamentalismos.

A leitura circular de universo proposta pelas cosmovisões africanas vê todos os reinos (mineral, vegetal, humano) como interdependentes e portadores do sagrado (que não está separado do mundo visível, como na perspectiva euro-cristã). Manipular elementos da natureza é cura para a alma. Fazer arte é integrar o sagrado humano – corpo, mente e alma – aos demais sagrados, sendo perpassados pela vibração, pelo ritmo. Nas artes estão contidos princípios de outras disciplinas – filosofia, geometria, física –, compartimentalizadas pelo Ocidente. Fazendo parte dessa afrodiáspora que compartilha do contínuo natureza-cosmos-cultura, da circularidade enquanto valor civilizatório, e que congrega disciplinas não compartimentalizadas, está Abdias. Como ele, estão intelectuais negros de outras partes.

O lugar afrodiaspórico coube a Abdias concreta e simbolicamente. A eleição como coordenador do III Congresso de Culturas Negras das Américas (São Paulo/SP, 1982) foi consequência de sua “afrodiasporicidade” de economista e poeta, dramaturgo e militante político, artista plástico e pesquisador acadêmico. Abdias foi intelectual antirracista física e metafisicamente falando, combatente de mazela sócio-racial-econômica e ancestral, que ataca modos de ser e viver “outros”, que foram e têm sido marginalizados-inferiorizados-folclorizados-demonizados.

Conhecimentos afrodiaspóricos resultam em pedagogias performativas, que não sobrevalorizam nem pensamento único nem forma de transmissão de conhecimento única, mas múltiplas. Como valorizou Abdias. Como valorizam intelectuais-artistas ancestralmente negros de outras partes.

Na perspectiva de des-silenciar o passado construído pela perspectiva euro-ocidental, como propõe o historiador haitiano Michel-Rolph Trouillot, são listados a seguir alguns intelectuais contemporâneos de Abdias. São dramaturgos, poetas, escritores e artistas de diferentes linguagens, habitantes de afrodiásporas caribenhas ausentes de historiografias euro-ocidentalizantes, provenientes de visões de mundo em que cabem todos os mundos.

Nicolás Guillén (1902-1989, Cuba)

Poeta, jornalista, diplomata. Considerado genuíno representante da poesia negra de Cuba. A participação intensa na vida política de seu país lhe custou exílio em várias ocasiões. Em 1937, ingressou no Partido Comunista. Com o triunfo da Revolução Cubana, em 1959, passou a desempenhar missões diplomáticas de grande relevância, visitando, entre outros países, Brasil, Chile, França, União Soviética, Tchecoslováquia e Hungria. Em 1961, é fundada a Unión de Escritores y Artistas de Cuba (Uneac), da qual Guillén foi eleito presidente, cargo que ocupou até a sua morte.

Sua produção literária inseriu-se, inicialmente, no âmbito do pós-modernismo, com as experiências vanguardistas dos anos 1920. Nesse contexto, converteu-se logo no representante mais destacado da poesia negra ou afroantilhana.  Expressando uma cultura “mulata”, fez sua incursão no universo literário com Motivos de Son (1930), seguido de Sóngoro Cosongo: Poemas Mulatos (1931) e West Indies, Ltd. (1934) – onde denunciou a exploração sofrida pelo arquipélago antilhano – e com poemas dispersos em livros diversos.

A partir daí, foi se aprofundando em suas preocupações políticas e com seus irmãos de raça, prosseguindo caminhos abertos com Sóngoro, Cosongo, onomatopeia que mostra o propósito do poeta de plasmar as raízes afrocubanas em ritmo e voz.  Sua obra seguiu desafiando contextos políticos regionais e internacionais adversos à raça negra e às classes trabalhadoras.

Em sua atuação política, aceitou o convite do poeta Jacques Roumain, diretor do Instituto de Etnologia do Haiti, e viajou ao país como enviado cultural do governo cubano, delegado da Frente Nacional Antifascista e redator do periódico Hoy, em 1942. Dois anos mais tarde, fundou a revista cultural Gaceta del Caribe, com José Antonio Portuondo, Mirta Aguirre e Ángel Augier. Em 1945, Guillén iniciou uma viagem pela América do sul, onde estabeleceu intercâmbios com artistas e intelectuais, expandindo e aprofundando sua visão do continente americano.

Ao completar 80 anos, recebeu o título de doutor honoris causa da Universidade de Bordeaux, na França, e da Ordem José Martí, reconhecimento máximo de seu país.

 

Marie Vieux Chauvet (1916, Haiti – 1973, Estados Unidos)

Dramaturga e romancista. Primeira mulher célebre da literatura haitiana com uma obra marcada por princípios de igualdade e, no campo da filosofia, pelo existencialismo. Conhecida por sua postura política pujante, Marie Chauvet atuou contra os abusos de todos os tipos dos quais são vítimas as mulheres e os desfavorecidos de forma geral.

Publicada pelas melhores editoras da França, objeto de estudo das maiores universidades dos Estados Unidos, Chauvet elegeu o vodu, a escravidão, o colonialismo (interno e externo) e o erotismo como os principais temas de sua obra. Foi figura proeminente na literatura haitiana do início dos anos 1960 e única mulher em um grupo de escritores que incluía Davertige, Serge Legagneur e René Philoctète. Aos domingos, ela abria sua casa para reuniões literárias.

Enfrentando o marido, que se separou dela por discordar de seu posicionamento político, e a ditadura de François Duvalier (1907-1971), ela tentou publicar Amour, Colère et Folie, cujo manuscrito lido por Simone de Beauvoir lhe rendeu o convite para publicação pelas Edições Gallimard (editora fundada em 1911 e pertencente a um dos grupos de editoras mais influentes da França até os dias atuais). Pouco tempo após a publicação dessa obra, em 1968, sua difusão foi interditada sob ameaça a ela e a seus familiares pelo regime de Duvalier. Logo após a interdição, Chauvet se exilou em Nova York, onde escreveu seu último romance, Les Rapaces.


Jan Carew (1920-2012, Guiana)

Escritor, historiador, intelectual, professor, ator. A maioria de seus livros de ficção se passa no Caribe, relatando a luta de caribenhos colonizados por definirem sua própria identidade, estando em casa ou no exílio. Sua literatura de não ficção foca temas afins, incluindo estudos das presenças indígenas e africanas nas Américas.

Carew viveu entre Caribe, Estados Unidos e Europa, onde chegou a integrar a companhia teatral de Laurence Olivier. Lecionou em universidades como Princeton (literatura do Terceiro Mundo e escrita criativa) e Northwestern (estudos afro-americanos e do Terceiro Mundo). Entre os prêmios que conquistou estão o Hansib Publication (1990); o Paul Robeson em honra a “viver uma vida de arte e política” (1998); e o Caribbean-Canadian Lifetime Creative (2003).


Sylvia Wynter (1928, Cuba)

Novelista e dramaturga. Nascida em Cuba de pai e mãe jamaicanos, Sylvia Wynter é uma das escritoras contemporâneas mais importantes do Caribe, cujo trabalho está pautado nos idiomas locais da região (como o patoá jamaicano). Seus escritos diversos reúnem teorias em história, literatura, ciência e estudos negros e exploram temas como raça, colonialismo e representações do humano.

Depois de um período em Londres escrevendo peças para rádio, Sylvia Wynter se tornou palestrante na Universidade das Índias Ocidentais e, posteriormente, foi professora nas universidades de Michigan e da Califórnia. Em 1977, tornou-se professora de estudos africanos e afro-americanos na Universidade Stanford.

Seu romance mais lido, The Hills of Hebron (1962), trata da crise produzida por tensões entre a difusão do cristianismo e a persistência de espiritualidade tradicional africana em uma comunidade caribenha. A maior parte de suas peças se encontra inédita, incluindo Shh… It´s a Wedding (1965); 1865, Ballad of a Rebellion (1965); e Maskarade (1979).

Édouard Glissant (1928-2011, Martinica)

Antropólogo, filósofo, poeta, romancista, teórico e ensaísta. Integrou a geração de intelectuais das colônias que fez sua formação na metrópole (França). Sua reflexão crítica sobre as lutas anticoloniais, o colonialismo e a identidade dos povos afrodiaspóricos está presente em sua obra e, com ela, a elaboração dos conceitos de antilhanidade e crioulização. Durante os estudos em Paris, foi membro ativo do grupo de estudantes africanos e antilhanos entre os quais se encontrava outro grande expoente, o também martinicano Frantz Fanon (1925-1961).

Participou dos círculos literários marxistas ao lado de poetas e também do Círculo Internacional dos Intelectuais Revolucionários, cujo objetivo incluía análise crítica do marxismo e estudo das questões ligadas ao colonialismo. Para Glissant, cabia às artes e à literatura impulsionar o projeto identitário de diferentes coletividades, conferindo atenção particular àquelas marcadas pelo tráfico de africanos.

Professor de literatura francesa na Universidade da Cidade de Nova York (Cuny) por mais de uma década, Glissant se dividia entre Estados Unidos, Martinica e França, onde fundou, em 2006, o Institut du Tout-Monde. No mesmo ano, o então presidente Jacques Chirac lhe concedeu a missão de prefigurar e presidir o Centre National pour la Mémoire des Esclavages et de leurs Abolitions (Centro Nacional da Memória da Escravidão e da Abolição), instituição que segue em atividade.


Frankétienne (1936, Haiti) 

Escritor, poeta, dramaturgo, músico, ativista, performer, intelectual, artista plástico e professor. Frankétienne é nome fundamental quando se fala nas dimensões linguísticas, estéticas, políticas e sociais da crioulidade.

É autor do primeiro romance em crioulo haitiano (Dézafi, de 1975, uma alegoria da opressão política no país sob o regime ditatorial de Papa Doc, como ficou conhecido François Duvalier).  Sem deixar de publicar também em francês, foi com a valorização do crioulo que sua obra acessou o grande público e mudou o paradigma na literatura antes dominada pela língua dos ex-colonizadores.

Publicou mais de 30 títulos até o momento, tendo sido indicado ao Prêmio Nobel de Literatura em 2009 e nomeado Artista Unesco para a Paz em 2010.

 

Maryse Condé (1937, Guadalupe)

Escritora, professora romancista. Depois de se formar na Sorbonne, em Paris, Maryse Condé se casou com o ator guineense Mamadou Condé, em 1960, e passou a dar aulas na Guiné. Seguiu lecionando em países como Gana e Senegal, mesmo após se divorciar. Apenas em 1973 ela retornou à França com seus quatro filhos, onde se casou com Richard Philcox, passando a dar aulas em diversas universidades e iniciando paralelamente sua carreira de romancista.

Após a publicação de Ségou, seu quarto romance, Maryse Condé retornou a Guadalupe, onde ficou por pouco tempo, vindo a se estabelecer nos Estados Unidos, onde se tornou professora emérita de francês na Universidade de Columbia.

Sua obra ficcional aborda questões em torno de sexos, raças e culturas em diferentes lugares e períodos históricos. A partir de 2004, ela passou a presidir o Comitê pela Memória da Escravidão, criado em aplicação da Lei Taubira, promulgada no mesmo ano, reconhecendo o tráfico negreiro como crime contra a humanidade.

Alguns de seus romances mais aclamados são Heremakhonon (1976), Ségou (2 volumes, 1984-85), Desirada (1997) e Célanire Cou-Coupé (2000). Entre seus principais ensaios figuram Pourquoi la Négritude? Négritude ou Révolution (1973) e Négritude Césairienne, Négritude Senghorienne (1974). Maryse Condé foi selecionada para os prêmios Le Grand Prix Litteraire de la Femme (1986) e Le Prix de L’Académie Francaise (1988) pelo conjunto de sua obra.

Liliane Braga é doutoranda em história social pela PUC/SP, onde integra o Centro de Estudos Culturais Africanos e da Diáspora (Cecafro). Sua tese de doutorado versa sobre contranarrativas à episteme ocidental a partir de cinemas negros do Brasil e do Caribe.

 

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Padê de Exu (1998), Rio de Janeiro - acrílico sobre tela | RCS Arte Digital/Acervo Ipeafro

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Recife (PE), 1980: Abdias Nascimento abraça Gilberto Gil | Acervo Ipeafro

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“As contradições do racismo se agravam ainda mais nos países periféricos e subdesenvolvidos, como é o caso do Brasil. Aqui, existe uma prática constante e explícita de violação dos direitos humanos, fundada no etnocentrismo branco contra a população afro-brasileira.”

pronunciamento de Abdias Nascimento no Senado Federal, dia 3 de abril de 1997

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Abdias Nascimento, Mãe Hilda, do Terreiro Ilê Axé Ogum, e Marcos Terena, presidente da União de Nações Indígenas, em evento do Memorial Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1981 | Acervo Ipeafro

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1984: Bernard Dadié, poeta da Costa do Marfim, integrante do movimento Négritude, e Abdias Nascimento | Elisa Larkin Nascimento/Acervo Ipeafro