Ipeafro

A trajetória do Ipeafro

Por Elisa Larkin Nascimento

A parceria com o Itaú Cultural traz o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro) e seu fundador, Abdias Nascimento, de volta às origens. Por iniciativa dele, paulista de Franca, e com o apoio de alunos negros e de dom Paulo Evaristo Arns, o Ipeafro foi criado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) em 1981.

A proposta era ser um centro de referência e estudos com base no acervo de Abdias, que retornava ao país após 13 anos de exílio. Realizamos aqui o 3o Congresso de Cultura Negra das Américas, primeira ocasião em que o Brasil recebeu uma representação do Congresso Nacional Africano, de Nelson Mandela, além de artistas e intelectuais de vários países das Américas Central e do Sul, do Caribe e de diversos estados do Brasil. Antes havíamos participado do ato público – na escadaria do Teatro Municipal, em 1978 – que deu origem ao Movimento Negro Unificado.

A pesquisa nos levou a comunidades quilombolas em vários estados. Oferecemos o curso Conscientização da Cultura Afro-Brasileira, que continuou no Rio de Janeiro com o nome Sankofa e mais tarde se desdobrou no Fórum Educação Afirmativa Sankofa.

Os primeiros anos do Ipeafro coincidiram com a intensa atividade de Abdias como deputado federal, e São Paulo foi palco de momentos decisivos, como em 1983, quando a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), sob a liderança de advogados negros, galvanizou um fórum sobre a ineficácia da Lei Afonso Arinos e a necessidade de um novo dispositivo legal criminalizando o racismo, em apoio ao Projeto de Lei no 1.661/1983, apresentado por Abdias. Em São Paulo surgiu, ainda, o Congresso Nacional Afro-Brasileiro, liderado pelo poeta Eduardo de Oliveira, grande amigo e primeiro colaborador do Ipeafro.

Em tempos anteriores, São Paulo abrigara a Frente Negra, que Abdias conheceu ainda jovem, participando de alguns de seus atos públicos quando era soldado. A resistência ao racismo lhe rendeu a exclusão do Exército e a condenação à revelia que o encaminhou, em 1941, à penitenciária do Carandiru. Lá ele criou o Teatro do Sentenciado e deixou seu testemunho sobre o cárcere no livro Submundo, ainda inédito. Outro livro escrito na prisão paulistana, o romance Zé Capetinha é um belo retrato da infância em Franca e da adolescência na capital de um jovem negro no início do século XX.

São Paulo não foi benevolente com o jovem Abdias, assim como não costuma ser com sua juventude negra até hoje. Talvez não deva surpreender, então, que a cidade tenha ficado indiferente durante o período de mais de uma década em que o Ipeafro realizou exposições sobre a vida e a obra de Abdias em diversas cidades e estados brasileiros, além de Nova York e Lagos, na Nigéria. Somente agora, graças ao olhar inédito do Itaú Cultural, chegamos à terra que lhe outorgou cidadania paulistana em 1996. Para o Ipeafro, tem sido um prazer trabalhar ao lado da equipe do instituto, que demonstra seu compromisso com a construção de uma nova abordagem da questão racial e novas formas de relacionamento humano.

Elisa Larkin Nascimento é diretora-presidente do Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro), instituição fundada em 1981, com ajuda sua, por Abdias, seu marido.

Compartilhe

Seção de vídeo

Ipeafro: um sonho, uma ideia

Compartilhe

1983: o poeta e embaixador de Gana no Brasil Kofi Awoonor é fotografado com Abdias Nascimento na PUC/SP, durante a primeira edição do curso Conscientização da Cultura Afro-Brasileira do Ipeafro | Iza Costa/Acervo Ipeafro

Compartilhe

"(...) Grande parte dos meus colegas não quer conhecer o que realmente o negro sofre. Querem viver na ilusão da ´democracia racial´. Querem perpetuar essa falsa imagem de um Brasil igualitário, de um Brasil paraíso de raças."

trecho tirado do livro "Abdias Nascimento – Grandes Vultos que Honraram o Senado", de Elisa Larkin Nascimento

Compartilhe

Folder (frente) do curso Sankofa, promovido pelo Ipeafro | Acervo Ipeafro

Compartilhe

Folder (verso) do curso Sankofa, promovido pelo Ipeafro | Acervo Ipeafro

Compartilhe

São Paulo (SP), 1982: 3º Congresso de Cultura Negra das Américas | Abelardo B. Alves Neto/Acervo Ipeafro

Compartilhe

São Paulo (SP), 1982: 3º Congresso de Cultura Negra das Américas | Abelardo B. Alves Neto/Acervo Ipeafro