O griot

Para alguns povos da África, os griots são aqueles que contam as histórias, narram os acontecimentos de um povo, passando as tradições para as gerações futuras. O livro autobiográfico Abdias Nascimento: O Griot e as Muralhas, escrito por Abdias e Éle Semog, reivindica exatamente esse lugar para um homem que fez da sua vida uma história de luta, contada e recontada para os contemporâneos e também para os que vieram depois dele. A luta contra o racismo no Brasil do século XX.

Abdias Nascimento é, portanto, um dos maiores griots que o Brasil já teve no contexto das questões raciais. Seu legado é vivo e respeitado por aqueles que o sucederam na luta.

De griot para tema a ser debatido, Abdias aparece na Ocupação como uma voz que ainda ecoa. Sua luta ainda é latente. Convidamos você a explorar sua trajetória, espalhada por várias áreas e por 97 anos de vida. Seja bem-vindo!

 

Infância

Abdias Nascimento aos 4 anos | Acervo Ipeafro

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Seção de vídeo

Ancestralidade

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"Eu não vim para trazer a calmaria das almas mortas, das inteligências petrificadas, dos que não querem fazer onda à flor das águas. [...] Eu estava mesmo disposto a assumir o papel de 'boi de piranha'. Todo mundo foge desse papel, mas eu não me importo. Se eu for sacrificado em nome do meu povo, estou recompensado de tudo. Toda a minha vida é isso mesmo, é o que indica toda a minha biografia."

retirado do livro "Abdias Nascimento: Retratos do Brasil Negro", de Sandra Almada

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Cronologia - primeiros anos

Abdias Nascimento

Franca (SP), 1914 – Rio de Janeiro (RJ), 2011

Noventa e sete anos de uma vida intensa. Assim a biografia de Abdias Nascimento poderia ser resumida em uma frase. Ativista, considerado por muitas pessoas como o nome mais importante da luta contra o racismo no Brasil do século XX, artista plástico, professor, poeta, ator, diretor teatral, político. Abdias era muitos. Foi muitos. É muitos. Abdias permanece, na importância do seu legado, na força da sua palavra.

A seguir (aqui e ao longo das demais seções), conheça a cronologia que abrange os fatos mais importantes da vida, da obra e da luta de Abdias Nascimento.


1914
– Nasce em Franca, interior de São Paulo, no dia 14 de março, filho do sapateiro José Ferreira do Nascimento e da doceira Georgina. Seus pais são católicos devotos, mas sua mãe também simpatiza com o kardecismo. No total, o casal veio a ter seis meninos e uma menina.

Infância (s.d.) – Mora no bairro da Cidade Nova e frequenta a comunidade negra Engenho do Mato, próxima à fronteira norte da cidade de Franca.

1922/1927 (aproximadamente) – Ajuda no orçamento doméstico trabalhando como entregador de leite e carne nas casas de famílias de classe média e realizando a limpeza de consultórios médicos. Trabalha também como chefe do almoxarifado do Departamento da Companhia Elétrica de Franca. Depois que conclui o primeiro grau, ingressa no curso noturno de contabilidade, no Ateneu Francano.

1929 – Viaja para São Paulo pela primeira vez, representando a cidade de Franca como velocista. Assiste ao desfile em favor de Júlio Prestes, que concorria à Presidência da República em oposição à candidatura de Getúlio Vargas. Eleito no ano seguinte, Júlio Prestes suspenderá a proibição do ingresso de negros na Guarda Civil e de crianças negras nas competições de “bebês eugênicos” promovidas pelo Serviço Sanitário de São Paulo.

1929/1930 – Abdias se muda para São Paulo, alistando-se como voluntário do Exército. Incorporado ao 2º Grupo de Artilharia Pesada, sediado em Quitaúna (Osasco), participa da revolução desencadeada pela eleição de Júlio Prestes (1930) e pela deposição de Washington Luís em favor de Getúlio Vargas, nomeado presidente em novembro de 1930. Nesse contexto político, Abdias não participa dos combates realizados durante a Revolução de 1930.  No mesmo ano, perde a mãe e retorna a Franca para o funeral.

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Origem

Georgina, mais conhecida como D. Josina, e José, os pais de Abdias | Acervo Ipeafro

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Ismênia, avó de Abdias | Acervo Ipeafro

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1930: Abdias no Quartel de Quintaúna (SP), aos 16 anos, como voluntário do 2º Grupo de Artilharia Pesada | Acervo Ipeafro

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Contador

1929: retratos dos contadores formandos no Curso Commercial do Atheneu Francano, em Franca (SP). Abdias aparece na terceira linha de fotos, o quarto da esquerda para a direita | Acervo Ipeafro

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Parceria

1991: Elisa Larkin Nascimento e Abdias Nascimento | Chester Higgins Jr./Acervo Ipeafro

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Documentos

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foto: Vantoen Pereira Júnior

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foto: Vantoen Pereira Júnior

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Autobiografia

EITO que ressoa no meu sangue
sangue do meu bisavô pinga de tua foice
foice da tua violação
ainda corta o grito de minha avó

LEITO de sangue negro
emudecido no espanto
clamor de tragédia não esquecida
crime não punido nem perdoado
queimam minhas entranhas

PEITO pesado ao peso da madrugada de chumbo
orvalho de fel amargo
orvalhando os passos de minha mãe
na oferta compulsória do seu peito

PLEITO perdido
nos desvãos de um mundo estrangeiro
libra… escudo… dólar… mil-réis
Franca adormecida às serenatas de meu pai
sob cujo céu minha esperança teceu
minha adolescência feneceu
e minha revolta cresceu

CONCEITO amadurecido e assumido
emancipado coração ao vento
não é o mesmo crescer lento
que ascende das raízes
ao fruto violento

PRECONCEITO esmagado no feito
destruído no conceito
eito ardente desfeito
ao leite do amor perfeito
sem pleito
eleito ao peito
da teimosa esperança
em que me deito

 

Búfalo, 25 de janeiro de 1979

Poema publicado no livro Axés do Sangue e da Esperança (Orikis).