Em cena

Uma bailarina expressionista. Essa é uma das formas como a atuação de Angel em cena costuma ser definida. Paralelamente ao seu trabalho como professora, a artista fez históricas aparições nos palcos, sempre dando grande atenção à expressão de ideias e sentimentos por meio do corpo.

foto: autor desconhecido/acervo família Vianna

Angel, no começo da década de 1950, em Les Silfides, coreografia de Carlos Leite para o Ballet de Minas Gerais.

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foto: autor desconhecido/acervo família Vianna

Em 1987, Movimento Cinco: Mulher trouxe Angel em coreografia assinada por seu filho, Rainer.

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foto: Renato Mangolin

A bailarina em cena do solo Amanhã É Outro Dia (2016), dirigido por Norberto Presta.

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Dos ciclos da vida às simplicidades cotidianas

Em cena, Angel Vianna transforma o palco em um horizonte sem limites

Por Ana Francisca Ponzio

“É a Anna Magnani brasileira”, disse a diretora de cinema Lúcia Murat sobre Angel Vianna em 2015, quando lançou seu filme Em Três Atos.

Esse longa-metragem sobre o envelhecimento é protagonizado por duas atrizes – Nathalia Timberg e Andréa Beltrão – que narram textos de Simone de Beauvoir enquanto duas bailarinas – Angel, então aos 84 anos, e Maria Alice Poppe, aos 38 – interpretam a coreografia do espetáculo Qualquer Coisa a Gente Muda (2010), assinada pelo diretor João Saldanha.

A comparação com a italiana Anna Magnani (1908-1973), tida como uma das maiores atrizes de sua época, dá uma noção da expressividade e da grandeza de Angel Vianna. No filme de Lúcia Murat, Angel realiza uma esplendorosa representação do ciclo da vida. O filme é um registro precioso que permite apreciar a naturalidade e a riqueza de nuances que a artista imprime ao seu instrumento de linguagem: o corpo expressivo em movimento.

Qualquer Coisa a Gente Muda. O título do espetáculo – que marca a fase recente de Angel – também reverbera o jeito de ser de sua protagonista em relação à vida e à dança.

Ausências prolongadas e aparições marcantes

Um estado permanente de disponibilidade, de inquietação e de abertura para as transformações, para a busca e para as descobertas confere a Angel a vitalidade preservada em 70 anos de carreira. Hoje, sua trajetória referencial reflete a evolução da dança no Brasil. Com Klauss Vianna, seu parceiro de vida e profissão, Angel mudou perspectivas a partir de proposições aparentemente simples, que dissociam a dança do formalismo superficial para incorporá-la às verdades essenciais e singulares de cada um. Mais do que uma coreografia pronta e acabada, a dança segundo Angel – e Klauss – está sempre em processo, num fluxo vinculado à pesquisa e à criação. Para uma geração que enxergava a dança na moldura do academicismo clássico, a proposta do casal Vianna soou como subversão. Para as gerações seguintes, que beberam na fonte de ambos, abriu-se um horizonte sem limites, pautado pela liberdade de expressão.

Angel sobreviveu a Klauss, falecido em 1992, e a Rainer, o filho do casal, morto precocemente aos 37 anos, em 1995, e a ela coube também o papel de manter-se como uma mulher de seu tempo, capaz de enfrentar os mais exigentes desafios – de seu mundo interno e das circunstâncias externas – e deles extrair condições de seguir adiante, evoluindo sempre. A densidade de cada momento de vida, presente na memória e na expressão corporal de Angel, se funde a seu trabalho artístico com unicidade, transmitindo a empatia que permite a todos nela se reconhecer. “Corpo como instrumento de vida” é o ensinamento que aflora em cada espetáculo de Angel, em cada apresentação que ela realiza.

Nos palcos, Angel somou ausências prolongadas a aparições sempre marcantes – como novos renascimentos. Em 1967, participou como bailarina do espetáculo teatral A Ópera dos Três Vinténs (de Bertolt Brecht e Kurt Weill), dirigido no Rio de Janeiro por José Renato e com preparação corporal de atores de Klauss Vianna. No mesmo ano, como integrante da companhia de Dalal Achcar, dançou em Giselle, produção que teve Rudolf Nureyev e Margot Fonteyn como solistas. Depois disso, voltou-se para o ensino, as pesquisas, o trabalho teatral e a estruturação de sua metodologia e dos cursos que culminaram na fundação da Escola e Faculdade Angel Vianna. O retorno à cena só ocorreu em 1987, quando interpretou uma coreografia com roteiro assinado por seu filho Rainer e sua nora Neide Neves – que, grávida da neta Tainá, também participou do espetáculo, intitulado Movimento Cinco: Mulher.

Até uma nova aparição passaram-se mais dez anos. Em 1997, como curadora de uma mostra de dança brasileira, eu a convidei para dançar um solo – que Angel considerou um renascimento, depois das perdas de Klauss e Rainer. Livre de artifícios cênicos, extraindo tudo de dentro de si mesma, sem descartar limitações físicas que a obrigavam a andar de muletas na época, ela resplandeceu em Angel, Simplesmente Angel.

Em 1998, apresentou-se no evento Panorama RioArte de Dança com Memória em Movimento, um solo que integrou uma exposição em homenagem a ela, Klauss e Rainer.

Dali em diante, sua presença em cena ganhou certa constância, especialmente em trabalhos de artistas cujas trajetórias trazem as marcas de Angel – como Paulo Caldas, que criou para ela o solo Inscrito, em 1999. Com Maria Alice Poppe, ela participou de criações de Alexandre Franco –  Impromptus, de 2002, e A Tempo, de 2007. Em 2012, Dudude Herrmann, Heloísa Domingues e Karina Souza a ela se reuniram para apresentar Improvisos – também uma homenagem, com música de Marcos Souza, Mauricio Tizumba e Yan Vasconcellos.

Em 2012, a instalação performática Ferida Sábia, de AnaVitória, traz novamente Angel para a cena, rodeada de uma nova geração de seguidores e admiradores – do trabalho também participaram Priscilla Teixeira, Soraya Bastos, Marina Magalhães, Renata Costa, Sergio Marimba, Milton Giglio, Ticiana Passos, Rose Verçosa, Neco Fx, Monica Prinzac, Renato Mangolin e Michael Sexauer.

Sabedoria compartilhada

Embora o trabalho de Angel se concentre sobretudo no Rio de Janeiro, vale destacar sua presença mais constante em São Paulo nos últimos anos, principalmente por intermédio de Jussara Miller em seu Salão do Movimento, na cidade de Campinas. Nas criações de Jussara – como os primorosos solos Nada Pode Tudo e O Corpo Sentado – é importante observar a elaboração que os ensinamentos de Angel e Klauss ganharam no trabalho de criação de artistas de gerações seguintes. Em São Paulo, também Zélia Monteiro, que conviveu mais com Klauss, representa a fértil linhagem de criadores-intérpretes vindos desta fonte comum – para citar os que estão produzindo criações cênicas.

Hoje, quase aos 90 anos, Angel continua compartilhando sabedoria com jovialidade e generosidade, sempre cercada de gente jovem, atraída pelo que a artista faz e representa. O corpo como instrumento de arte-vida é fonte inesgotável de conhecimento para Angel, cujo dom da percepção e da transformação se soma à sua declarada paixão pelo ser humano. Como os grandes gênios da dança – e por que não citar também Kazuo Ohno? –, ela tece sua obra com base nas simplicidades cotidianas. De forma tão natural quanto a respiração, ocupa a cena nos dizendo que Amanhã É Outro Dia – nome do solo de 2016 dirigido por Norberto Presta –, ou que O Tempo Não Dá Tempo – criação de 2018 dirigida por Duda Maia, em que Angel se reúne a jovens criadores integrados a uma mescla de linguagens artísticas para compor um reencontro com toda uma história de vida.

Ana Francisca Ponzio é jornalista, crítica e curadora.

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foto: Renato Mangolin

Angel e Maria Alice Poppe (de costas) em Qualquer Coisa a Gente Muda (2010), coreografia de João Saldanha.

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foto: Renato Mangolin

Angel e seus parceiros de palco – Ciro Sales, Juliana Linhares, Marina Vianna e Oscar Saraiva – no espetáculo O Tempo Não Dá Tempo (2018), dirigido por Duda Maia.

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Seção de vídeo

Bailarina

AnaVitória, bailarina, coreógrafa e curadora da Ocupação Angel Vianna, comenta o impacto da presença de Angel na Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde a homenageada do programa Ocupação lecionou durante a década de 1960, e destaca sua força expressiva e o desenvolvimento de um trabalho original que já se distanciava da educação tradicional da dança.

Joana Ribeiro, professora e pesquisadora, reitera a expressividade da artista. Maria Alice Poppe, bailarina e professora, comenta o processo criativo do espetáculo Qualquer Coisa a Gente Muda, encenado em parceria com Angel. Neide Neves, bailarina e professora, fala sobre o constante processo de criação da homenageada.

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foto: Xico Lima

Angel também participou de espetáculos teatrais ao longo de sua carreira. Na foto ao lado, a artista interpreta a personagem Estregga da tragicomédia A Rosa Tatuada. Baseada em texto do norte-americano Tennessee Williams, a peça foi montada em 1985 e contou com a direção de Luis Carlos Ripper.