Poemas para a posteridade

Durante uma entrevista exibida em 1979 pelo programa Vox Populi, da TV Cultura, Cartola comentou sua produção de poemas – poemas feitos para o papel, não para os discos – e disse que gostaria de reuni-los em um livro. “Quando eu tiver mais uma dúzia deles vou fazer um sacrifício […] para que eu possa editar um livrozinho e deixá-lo para a posteridade.” O artista, porém, morreu poucos meses depois.

Os manuscritos e os datiloscritos apresentados a seguir são alguns dos poemas que comporiam o livro planejado por Cartola.

Com o gradual crescimento das escolas de samba, os interesses externos passaram a interferir na lógica das agremiações. Isso fez com que Cartola, no final da década de 1940, resolvesse se afastar da Estação Primeira de Mangueira. O poema “Obscuridade” é representativo desse momento em que o compositor deixa o cenário musical do morro | datiloscrito: acervo da família

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manuscrito: acervo da família

Quero mais rugas nas faces

Raro os que não me chamam
De velho, velho baldado
Curvo a cabeça calado
Satisfeito com o que sou

Deixem que os dias se passem
Quero mais rugas nas faces
Quero que o corpo se encline
Com o peso de minha idade

Tive tambem mocidade
Mocidade de incertesas
Quantas vezes me faltaram
O pão sobre minha mesa

Há coisas que da memoria
Não podem fugir jamais
Eram os tempos que os filhos
Dealogavam com os pais

Será senhor que é pecado
Ser velho assim como sou
Será que esta juventude
Pensa que o tempo parou

Oh’ poderoso, oh’ mestre
Eluminai-les as estradas
Para que cheguem ao final
Com a vida realizada

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Esse poema foi escrito por Cartola após a descoberta da doença que o levou à morte | manuscrito: acervo da família

Anjo Mau

Eu queria que Jesus
Um dia a terra voltasse
Mas temo que muita gente
Na cruz de novo o pregasse

De que cratera saistes
Em que lodaçal brotastes
Porque fizestes tão mal
Nos lugares que passastes?
Porque este olhar satânico
Que força mal te conduz
Eu noto ficas em panico
Quando deparas a cruz
Porque disfarças um sorriso
Quando vês alguem no leito
Em bom som dizes coitado
Depois sussurras bem feito
Porque não foges p’ras trevas
Igual um cão acuado
Embrenha-te no infinito
E deixa-nos sossegado

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Lidas na vertical de cima para baixo, as letras iniciais dos versos desse acróstico formam o nome de uma mulher – Esther Serdeira – com quem Cartola se envolveu nos anos 1930. O texto foi escrito a pedido da moça, que já era comprometida | datiloscrito: acervo da família

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Esse poema foi posteriormente registrado com o título “Manoel” | manuscrito: acervo da família

Quantos Manoel existem em nossa historia
Que cobriram a nossa Patria de glórias
Manoel da Nobrega o Padre benfeito
Manoel Deodoro o bravo lutador
Manoel Bandeira grande Escritor Poeta
Manoel Duque Estrada um dos autores
Do hino Nacional
Mais virando o painel
Encontraremos outro Manoel atual
Que com o seu talento
Foi tri campeão
No sport mundial

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datiloscrito: acervo da família